O sopro de vida

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Eu sempre fui forçado a fazer coisas que não gostava, coisas que não queria, coisas que nem mesmo conseguia me sentir confortável fazendo, mas sabe como é por aqui: seu pai lhe ordenou algo, melhor fazer.

A vida (pode-se chamar assim?), pra mim, é um segmento de eventos que não fazem muito sentido, são ordens que eu vou seguindo e vendo enquanto vou caminhando até onde elas me levarem.
Ideias são guardadas já que, expostas, afrontariam o “ó Grande Construtor da Grécia”, como poderia seu filho pensar em algo que ele jamais pensara?
Vontades são reprimidas, já que desonra é absolutamente impensável para uma família que, vindo da pobreza, se ergueu entre as grande de Creta.
Desejos são jogados fora.
Ambição é algo que não se pode nem pensar.

Será que eu vivo para agradá-lo? Para servir de cobaia aos seus experimentos? Para ser mandado e obedecer? Será que foi para isso que os Deuses me criaram? Que tipo de Deus seria tão cruel assim, em criar uma vida para bel-prazer de outra?

Não, eu tinha certeza que, em algum momento, eu teria a chance de me erguer, de fazer minha vontade valer, de mostrar do que eu era capaz, de ser livre e me sentir talvez, sem amarras, sem pressão.

Foi um dia logo cedo que ele abriu minha porta, pouco se importando se eu dormia ou se estava bem, veio gritando:
– LEVANTA! LEVANTA! VAMOS QUE HOJE VOCÊ VAI TESTAR AS ASAS QUE EU CRIEI!

-Asas? Que? Como assim? ….? Asas?

– SIM! ASAS COMO A DOS PÁSSAROS, SE ELAS FUNCIONAREM, PODEREMOS VOAR! VOAR!

Eu havia acabado de despertar com isso, era a hora, minha chance de sumir, começar uma vida nova, que esse cativeiro não me prendesse mais, que minha vontade se sobressaísse e eu pudesse, enfim, sentir o gosto da vida.

Na colina, meu pai falou:

– Voa, Icarus, testa as asas e vamos ver o que precisamos melhorar.

Eu sentia uma mistura de medo e emoção! Voar! Que sonho! Subir aos céus como as aves! Passar pelo mar como um Deus e jamais retornar! Ir, então, atrás de uma vida além daqui! Ir para um caminho desconhecido, de coisas novas e aventuras! Pouco me importava se teria dificuldade para comer, para sobreviver, para me manter! Pouco me importava o que fossem dizer ou pensar! A vontade de viver era maior do que qualquer dificuldade que qualquer Deus me apresentasse.

– Sim, grande pai! Deixarei o senhor orgulhoso! – eu disse tentando conter o riso no canto da boca.

Assim que subi, não lembrava mais de nada. Voar é algo sensacional, dá um frio na barriga, dá um medo, como controlar tudo? Como segurar nas asas? E se um pássaro bater mim? Eu mal conseguia ouvir, distante, a voz do meu pai gritando de alegria pelo seu grande invento ter dado certo e tentando me passar instruções de como controlar tudo aquilo. Eu passei a coordenar o voo e ir em direção ao mar. Ele gritou que não deveria ir para lá. Mas eu já me sentia confiante demais com aquele novo poder, com aquela liberdade. Ele me mandou voltar, esbravejava, furioso, que afronta desse moleque! Eu olhei para baixo quando ele falou sobre a cera que ele havia usado nas asas e como elas estragariam se eu fosse mais alto ou longe do que o ponto onde eu já estava.

E foi então que eu decidi entre um momento de paixão ou uma vida sem amor.

Bati os braços o mais forte que eu pude, com toda a vontade contida no meu peito.
Me entreguei e subi alto, é engraçado como lá de cima tudo parece tão pequeno, insignificante.
E lá do alto, no ponto mais alto que consegui chegar, eu chorei…
e me entreguei à queda.

 

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A pena do filho.

– Pai, eu gostaria muito de uma fantasia com asas para as festas dessa colheita, por favor.

– Tudo bem, filho, irei pintá-las como queira.

– Não, pai, eu pensei que poderíamos pegar as asas dos gansos mesmo, para que minha roupa fique a mais bonita de todas!

Me pareceu fora do normal, eu sempre ensinei meu filho a não maltratar os animais, mas, com apenas 4 anos, não poderia negar um pedido tão sincero.


– Pai, como todos te conhecem por ser um ótimo artesão, eu suplico que o senhor me faça asas com as quais eu possa pular de cima do castelo e planar por um tempo, ver a cidade! O senhor sabe que esse sempre foi meu sonho: voar.

– Mas meu filho, isso seria perigoso, e se elas não funcionassem? Você se machucaria ao cair.

– Pai, faltam 6 dias para a comemoração do meu nascimento, já tenho quase 11 anos e não posso ficar vivendo sem me arriscar.

Me pareceu um risco desnecessário, até porque em pouco tempo talvez nem desse tempo de testar um trabalho difícil como esse. Mas o que poderia deixar de fazer pelo meu filho, minha vida?


– Pai, eu exijo que você me construa asas para que eu possa voar por sobre a ilha, quero não só planar, mas também voar muito acima e além das nuvens.

– Mas filho, isso é algo que ninguém nunca tentou fazer, isso é algo que seria extremamente arriscado!

– Por acaso eu pedi, meu pai? Esse é o meu sonho e eu não vou aceitar não como resposta! Eu PRECISO dessas asas, você não entende, você nunca entenderá!

O que eu não faria pelo amor que tenho ao meu filho? O que eu não faria para tê-lo feliz?


Duas semanas depois as asas estavam prontas.

– Aqui estão, Icarus, como você pediu. As asas estão unidas com cera que eu mesmo fiz e nem mesmo Apolo em toda sua força e vontade conseguirá derretê-las, basta que você espere até amanhã para que as ceras fixem todas as penas e a cola fique firme.

Eu sabia que ele não me ouviria, eu sabia que ele era teimoso, eu sabia que ele havia se tornado uma pessoa que teve tudo muito fácil na vida, por culpa de um pai que não soube lhe impor limites. Mas eu orei aos deuses que ele tivesse um pouco de senso. Orei a todos para que ele fosse protegido.

Eu tentei ensiná-lo.
E falhei..
Ou consegui…
finalmente?

Naquele dia ele usou as asas e, de cima do labirinto, com os olhos que não se controlavam, pude ver a cera pingando aos poucos no mar e as asas de desfazendo. Quis gritar, quis correr, quis voar atrás dele, mas como faria isso se não sentia nem minhas pernas?
Apenas assisti.
Daquela altura, nem mesmo Poseidon poderia salvá-lo.